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A sistematização da Geografia: Humboldt e Ritter
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Escrito por Solange M. Di Renzo   
Seg, 30 de Janeiro de 2012 13:31

A especificidade da situação histórica da Alemanha, no início do século XIX, época que se dá a eclosão da Geografia, está no caráter tardio da penetração das relações capitalistas nesse país. Na verdade, o país não existe enquanto tal, pois ainda não se constituiu como Estado Nacional. A Alemanha de então é um aglomerado de feudos (ducados, principados, reinos) cuja única ligação reside em alguns traços culturais comuns. Inexistente qualquer unidade econômica ou política, a primeira começando a se formar no decorrer do século XIX, a segunda só se efetivando em 1870, com a unificação nacional. Assim, a Alemanha não conhece a monarquia absoluta (forma de governo própria do período de transição), nem qualquer outro tipo de governo centralizado. O poder está nas mãos dos proprietários de terras, sendo absoluto e a nível local – a estrutura feudal permanece intacta. É neste quadro que as relações capitalistas vão penetrar, sem romper (ao contrário, conciliando) com a ordem vigente. Tal penetração vai produzir um arranjo singular, aquilo que já foi chamado por alguns autores de “feudalismo modernizado”. Isto é, um relativo desenvolvimento do capitalismo, engendrado por agentes sociais próprios do feudalismo – a aristocracia agrária; uma transformação econômica, que se opera sem alterar a estrutura do poder existente.
O capitalismo penetra no quadro agrário alemão sem alterar a estrutura fundiária. A propriedade da terra, origem de todo o poder, permanece nas mãos dos elementos pré-capitalistas. Estes se tornam capitalistas, pela destinação dada à produção: o latifúndio, que possuía uma economia fechada, de autoconsumo, passa a produzir para um mercado. Entretanto, as relações de trabalho não se alteram - a servidão (forma de relação de trabalho típica do feudalismo) permanece como base de toda a produção. Assim, mesclam-se elementos tipicamente feudais com outros próprios do capitalismo: produção para o mercado, com trabalho servil. O comércio local não se desenvolve, sendo a produção destinada ao exterior. O comércio entre as unidades, os principados e os ducados alemães, também não se intensifica, em função das barreiras alfandegárias existentes entre eles. Em função disso, pouco se desenvolvem as cidades, e também a classe que lhes é própria – a burguesia. Esta, pulverizada e débil, é na verdade uma pequena burguesia local; não consegue impor seus interesses, como suas congêneres francesa ou inglesa. Não ocorre, na Alemanha, uma revolução democrático-burguesa. A burguesia alemã só se desenvolverá à sombra do Estado, e de um Estado comandado pela aristocracia agrária. Este é o quadro da Alemanha, na virada do século XVIII.
A própria sedimentação das relações capitalistas e, principalmente, o expansionismo napoleônico, vão acender nas classes dominantes alemãs a idéia da unificação nacional. Esta meta passa a ser, a partir de um certo momento, uma necessidade para a própria continuidade do desenvolvimento alemão. Este se havia acelerado, em função do bloqueio continental imposto por Bonaparte, que propiciou uma incipiente industrialização em algumas cidades da Alemanha, além de incrementar o comércio interno. Este ideal de unidade vai ter suam primeira manifestação concreta com a formação, em 1815, da “Confederação Germânica”, que congregou todos os principados alemães e os reinos da Áustria e da Prússia. Apesar de não constituir ainda uma unificação nacional, estabeleceu maiores laços econômicos entre seus membros, com o fim dos impostos aduaneiros entre eles. É dentro desta situação que se pode compreender a eclosão da Geografia.
A falta da constituição de um Estado nacional, a extrema diversidade entre os vários membros da Confederação, a ausência de relações duráveis entre eles, a inexistência de um ponto de convergência das relações econômicas – todos estes aspectos conferem à discussão geográfica uma relevância especial, para as classes dominantes da Alemanha, no início do século XIX. Temas como domínio e organização do espaço, apropriação do território, variação regional, entre outros, estarão na ordem do dia na prática da sociedade alemã de então. É, sem dúvida, deles que se alimentará a sistematização geográfica. Do mesmo modo como a Sociologia aparece na França, onde a questão central era a organização social (um país em que a luta de classes atingia um radicalismo único), a Geografia surge na Alemanha onde a questão do espaço era a primordial.
As primeiras colocações, no sentido de uma Geografia sistematizada, vão ser a obra de dois autores prussianos ligados à aristocracia: Alexandre Von Humboldt, conselheiro do rei da Prússia, e Karl Ritter, tutor de uma família de banqueiros. Ambos são contemporâneos e pertencem à geração que vivencia a Revolução Francesa: Humboldt nasce em 1769 e Ritter em 1779; os dois morreram em 1859, ocupando altos cargos da hierarquia universitária alemã.
Humboldt possuía uma formação de naturalista e realizou inúmeras viagens. Sua proposta de Geografia aparece na justificativa e explicitação de seus próprios procedimentos de análise. Assim, não estava preocupado em formular os princípios de uma nova disciplina. Desta forma, seu trabalho não tinha um conteúdo normativo explícito. Seus principais livros são Quadros da Natureza e Cosmos, ambos publicados no primeiro quartel do século XIX. Humboldt entendia a Geografia como a parte terrestre da ciência do cosmos, isto é, como uma espécie de síntese de todos os conhecimentos relativos à Terra. Tal concepção transparece em sua definição do objeto geográfico, que seria: “A contemplação da universalidade das coisas, de tudo que coexiste no espaço concernente a substâncias e forças, da simultaneidade dos seres materiais que coexistem na Terra”. Caberia ao estudo geográfico: “reconhecer a unidade na imensa variedade dos fenômenos, descobrir pelo livre exercício do pensamento e combinando as observações, a constância dos fenômenos em meio a suas variações aparentes”. Desta forma, a Geografia seria uma disciplina eminentemente sintética, preocupada com a conexão entre os elementos, e buscando, através dessas conexões, a causalidade existente na natureza. Em termos de método, Humboldt propõe o “empirismo raciocinado”, isto é, a intuição a partir da observação. O geógrafo deveria contemplar a paisagem de uma forma quase estética (daí o título do primeiro capítulo do Cosmos: “Dos graus de prazer que a contemplação da natureza pode oferecer”). A paisagem causaria no observador uma “impressão”, a qual, combinada com a observação sistemática dos seus elementos componentes, e filtrada pelo raciocínio lógico, levaria à explicação: à causalidade das conexões contidas na paisagem observada. Daí a afirmação de Humboldt: “a causalidade introduz a unidade entre o mundo sensível e o mundo do intelecto”. Pois é, ao mesmo tempo, algo existente de fato na natureza, porém só apreensível pela razão, assim, uma inerência do objeto e uma construção do sujeito.
A obra de Ritter já é explicitamente metodológica. Em seu principal trabalho, Geografia Comparada, há um intuito deliberado de propor uma Geografia, sendo assim um livro normativo. A formação de Ritter também é radicalmente distinda da de Humboldt, enquanto aquele era geólogo e botânico, este possui formação em Filosofia e História. Ritter define o conceito de “sistema natural”, isto é, uma área delimitada dotada de uma individualidade. A Geografia deveria estudar estes arranjos individuais, e compará-los. Cada arranjo abarcaria um conjunto de elementos, representando uma totalidade, onde o homem seria o principal elemento. Assim, a geografia de Ritter é, principalmente, um estudo dos lugares, uma busca da individualidade destes. Toda esta proposta se assentava na arraigada perspectiva religiosa desse autor. Para ele, a ciência era uma forma de relação entre o homem e o “criador” (com uma dimensão interior de revelação), uma tentativa de aprimoramento das ações humanas, assim uma aproximação à divindade. Neste sentido, caberia à Geografia explicar a individualidade dos sistemas naturais, pois nesta se expressaria o desígnio da divindade ao criar aquele lugar específico. A meta seria chegar a uma harmonia entre a ação humana e os desígnios divinos, manifestos na variável natureza dos meios. Para Ritter, a ordem natural obedeceria a um fim previsto por Deus, a causalidade da natureza obedeceria à designação divina do movimento dos fenômenos. Deste modo, haveria uma finalidade na natureza, logo uma predestinação dos lugares. Compreender esta predestinação seria a tarefa do conhecimento geográfico, que no limite, para esse autor, seria uma forma de “contemplação da própria divindade”. A proposta de Ritter é, por estas razões, antropocêntrica (o homem é o sujeito da natureza), regional (aponta para o estudo de individualidades), valorizando a relação homemnatureza. Em termos de método, Ritter vai reforçar a análise empírica – para ele, é necessário caminhar de “observação em observação”.
A obra destes dois autores compõe a base da Geografia Tradicional. Todos os trabalhos posteriores vão se remeter às formulações de Humboldt e Ritter, seja para aceitá-las, ou refutá-las. Apesar das diferenças entre estas – a Geografia de Ritter é regional e antropocêntrica, a de Humboldt busca abarcar todo o Globo sem privilegiar o homem – os pontos coincidentes vão aparecer, para os geógrafos posteriores, como fundamentos inquestionáveis de uma Geografia unitária. Assim, estes autores criam uma linha de continuidade no pensamento geográfico, coisa até então inexistente. Além disso, há de se ressaltar o papel institucional, desempenhado por eles, na formação das cátedras dessa disciplina, dando assim à Geografia uma cidadania acadêmica. Entretanto, apesar deste peso no pensamento geográfico posterior, não deixam discípulos diretos. Isto é, não formam uma “escola”. Deixam uma influência geral, que será resgatada por todas as “escolas” da Geografia Tradicional.
As colocações de Humboldt e Ritter são bastante divulgadas. Vários dos mais eminentes geógrafos da geração seguinte foram alunos deste último: E. Reclus, Semenov Tyan-Shanskiy, F. Von Richthofen, entre outros. Porém, mesmo estes formulam propostas próprias. Foi talvez na Rússia que as idéias de Humboldt e Ritter tiveram aplicação mais literal, em autores como Mushketov, Dokuchaev e Woiekov. Apesar de realizar a Geografia russa vigoroso trabalho de campo, é, sem dúvida, na Alemanha que a discussão metodológica permanece acesa. Portanto, foi desse país que vieram as maiores contribuições à sistematização do pensamento geográfico. Isto não quer dizer que inexistam geógrafos importantes em outros países. Basta pensar no citado Elisée Reclus, da França. Entretanto, o eixo da discussão geográfica continua na Alemanha, durante todo o século XIX.
A geração que se segue à de Humboldt e Ritter vai se destacar pelo avanço empreendido na sistematização de estudos especializados, do que da Geografia Geral. É o caso de W. Penk, com a Geomorfologia (estudo do relevo), e de Hann e Koppen, com a Climatologia. Pode-se aventar que o desenvolvimento destes estudos era um pré-requisito para avançar, além das formulações de Humboldt e Ritter, a sistematização da geografia. Dois autores alemães merecem destaque neste sentido: O. Peschel e F. Von Richthofen. O primeiro realizou uma revisão crítica da obra de Ritter, contestando-a. Para Peschel, a Geografia era um estudo das formas existentes nas paisagens terrestres, o qual, entre elas, deveria buscar as semelhanças, através da comparação. Richthofen realizou inúmeros trabalhos de campo, aprimorando as técnicas de descrição. Também, avançou no que tange à elucidação e precisão dos conceitos empregados. Propunha uma das definições mais empíricas do objeto geográfico, vendo-o como “a superfície terrestre”. Estes autores ajudam a manter aberta uma via de discussão teórica do pensamento geográfico, na Alemanha; nos outros países da Europa, a Geografia seguia constituída de levantamentos empíricos e enumerações exaustivas sobre os diferentes lugares da Terra.


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